Museu do momento

  • © Sanaa/ Kazuyo Sejima and Ryue Nishizawa

Museu do momento Lens fr

Por Bree Sposato

 

Mais do que qualquer outra instituição de arte no mundo, o Louvre é um destino por si só, a atrair milhões de viajantes para suas portas. Em 2012, ele fez história ao abrir sua primeira e, até o momento, única “filial”, o Louvre-Lens, no norte da França, um passo ousado que vai transformar toda uma região e mudar o intercâmbio das coleções. 

Um braço esticado, segurando a bandeira francesa, a jovem de torso nu lidera a multidão de homens brandindo armas que passam sobre corpos caídos, rumo a uma vitória revolucionária sangrenta. A tela – Liberdade Guiando o Povo, de EugèneDelacroix – é familiar e ocupa as paredes do Louvre há décadas.

No Louvre-Lens, aberto dia 4 de dezembro de 2012 na cidade que dista de Paris uma hora e dez minutos de trem de alta velocidade, este quadro romântico terá, por um período, contexto e audiência completamente diferentes. E não será o único. O museu-satélite abrigará 300 obras-primas, que datam desde o quarto milênio antes de Cristo até 1850, todas emprestadas do Louvre parisiense.

O braço do museu de 226 milhões de dólares certamente não será o primeiro bastião de arte fora da capital – museus nacionais têm emprestado peças e garantido assistência científica a instituições regionais há séculos. Esta inauguração, porém, representa um esforço mais sistemático e acelerado de usar a arte como um meio de investimento no interior, com o apelo de transformar cidades de baixo orçamento em destinos economicamente tão atraentes como fez o Museu Gehry Guggenheim com a cidade industrial de Bilbao, na Espanha, e o Centre Pompidou, em Metz, na região da Lorena. 

Escolher o segundo lar do Louvre foi um trabalho de amor. Lens foi eleita por três motivos: não tem nenhum outro museu notável por perto; a cidade de atividade mineradora, bastante destruída pelos bombardeios da I Guerra Mundial, tem sofrido economicamente desde a crise do petróleo de 1970; e a área abrigou uma mina abandonada de carvão com mais de 200 mil metros quadrados, cuja utilização precisava ser requalificada.

A empresa japonesa de arquitetura SANNA, vencedora do Pritzker Prize, o mais prestigiado prêmio da arquitetura mundial, por sua simplicidade estética (evidente também no New Museum de Nova York e no Museu de Arte de Toledo), cuidou do projeto. O diretor do Louvre-Lens, Xavier Dectot, soube do acerto desde o começo: “A SANNA propôs um museu que refletisse a arquitetura do terreno ao redor, não uma mera arquitetura de playground”. Hoje, um prédio principal, similar às duas alas estendidas do Louvre, mais quatro prédios retangulares – todos feitos de vidro e alumínio – situam-se no terreno maravilhosamente ajardinado e reflorestado. As entradas das minas permanecem, referência ao passado industrial da cidade.

Um elemento em particular sugere que a separação entre os dois complexos não é só física, mas também filosófica. “Um museu é um lugar vivo”, frisa Dectot. “E queremos mostrar o que há nos bastidores.” Grupos de 17 visitantes com reservas feitas antecipadamente serão conduzidos aos porões para conhecer as áreas de restauro, reserva técnica e poderão testemunhar – na mesma sala, não só espiando por uma janela – esculturas gregas sendo cautelosamente recuperadas para a glória.

E glória não é uma palavra forte demais quando se trata de programa de arte. A maioria dos museus divide as salas em temas ( Egito, Renascença e outros), mas a ideia aqui é algo mais inovador: não haverá coleção permanente. “Estamos habituados à estabilidade dos museus”, pontua Dectot. “Portanto é mais interessante mudar a conversa.” Em vez disso, o museu abrigará duas exibições multidisciplinares por ano (uma no verão e outra no inverno) que mostrarão peças recolhidas dos oito departamentos do Louvre: Antiguidades do Oriente Próximo, Antiguidades Egípcias, Gregas, Etruscas e Romanas, Arte Islâmica, Artes Decorativas, Impressões e Desenhos, Esculturas e Pinturas.

As exibições na habilmente batizada Galeria do Tempo serão supervisionadas por curadores do Louvre e organizadas cronologicamente, o que significa que peças que nunca apareceriam lado a lado em Paris estarão aqui. Desta maneira, trabalhos de arte de diversas civilizações poderão “conversar” entre si, formando um tipo de linha do tempo da história da arte.

Mudar o contexto da arte, mudar a forma como as pessoas interagem com as obras e mudar a cultura e a percepção do interior – é disso que se trata. “Espero que o Louvre-Lens promova o trabalho de transformação da área num destino”, filosofa Dectot. “E que a metamorfose, em 5 ou 10 anos, ganhe seu momento próprio.” É a arte em ação.

 

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