Edmund White, um dos mais conhecidos escritores para gays (e heterossexuais) fala sobre sua temporada na França

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    Edmund White, um dos mais conhecidos escritores para gays

Edmund White, um dos mais conhecidos escritores para gays (e heterossexuais) fala sobre sua temporada na França Ile de France fr

 

A sensação é que Edmund White já deu inúmeras entrevistas. O queijo e salame já estão postos. O vinho pronto. Durante esta, e até depois, foi muito atecioso, automaticamente soletra palavras estrangeiras. Há a nítida impressão que ele tem mil histórias para contar, mas contará só algumas. Ao ouvi-las e observaa-se a forma como ele fala, não exatamente desconexo, mas mais como um livro de "escolha sua própria aventura", no qual em cada pausa, ele decide qual caminho quer me levar.
Nós nos encontramos para discutir sobre sua temporada passada na França, como um dos escritores para gays (e heterossexuais) preeminentes no mundo:

- A maioria de seus livros é fortemente autobiográfica, lidando com sua vida como um jovem homem gay nos Estados Unidos.  Mas então você pára e vai para a França por este longo período de tempo.  Como isso afetou sua escrita?  E qual é a diferença entre a vida gay em Paris e a vida gay aqui nos Estados Unidos?

Eu me mudei para a França em 1983, sendo completamente diferente naquela época em Paris do que era em Nova Iorque. Porque em Nova Iorque, a vida gay era organizada ao redor de um gueto que era a West Village, que se tornou Chelsea desde então, sendo chamada Hells Kitchen hoje. 
E assim, as pessoas tendem a estar fora e não viverem perto de suas famílias aqui.
Em outras palavras, o que quero dizer é que a maioria das pessoas que estão nas artes, publicando, na mídia ou o que for, mudaram-se para cá vindos de algum outro lugar.
E os Estados Unidos é um país enorme, assim eles estão bem longe de suas famílias, e eles todos têm as condições necessárias para terem saído: estar longe de suas famílias e tendo uma renda independente.
Então, é muito diferente de Paris, para onde as pessoas se mudam pelo menos uma vez em suas vidas, é isso que acontece, das províncias para Paris. Um entre cada cinco franceses vive na maior área de Paris (há 16 milhões de pessoas lá) e, uma vez que você está lá, você não sai mais, assim, uh, você ainda tem aquela questão de família que o assombra.

- Você está dizendo que menos pessoas saem do armário em Paris?

Correto. Especialmente na década de 80. Agora, de certo modo, você pode dizer que a AIDS saiu do armário por eles. 
Havia tantas pessoas que ficaram doentes lá que eles eram descobertos por isso.

 

- E você estava lá, nesta altura?

Naquilo tudo, sim.  E eu tinha sido um dos fundadores da Gay Men’s Health Crisis.
E, então eu me mudei para Paris por volta de 1983 e por volta de 1985 eu estava aconselhando as pessoas que estavam começando um grupo chamado AIDES, que era a versão francesa da Gay Men’s Health Crisis. 
Assim, Michel, o viúvo de Foucault, Daniel Defert, era um grande amigo meu e ele era o fundador deste grupo.
Eu diria que agora Paris é bastante parecida com Nova Iorque, no sentido de que há o distrito de Marais, que é muito como esta área, e que as pessoas tendem a vestirem-se à parte, serem óbvias e declaradamente fora do armário.
  


- Mas em seus livros você não estava em Nova Iorque o tempo todo.  Você estava em lugares onde a homossexualidade era reprimida de qualquer maneira.  Você sentiu o mesmo tipo de tensão na França?  O mesmo tipo de sentimento “clandestino” e “secreto”?

Quase isso. A diferença é que os franceses, naquela época e até hoje, tendem a dizer:
"Eu não quero saber sobre a vida sexual dos meus colegas".
Quero dizer, o homem que trabalha na mesa ao meu lado, eu gosto dele, eu almoço com ele, mas eu sequer sei se ele tem uma esposa ou não. E é verdade que eu tive muitos amigos franceses assim. 
Havia um sujeito que era realmente atraente e trabalhava para o Louvre. Eu o levei para jantar 10 vezes ou algo assim e, finalmente numa noite, é que eu pergunto: “Você é homossexual ou não?”.
E eu só penso que, apenas por eu ser um americano atrevido, é que eu ousaria fazer uma pergunta assim. E ele disse "Oh! infelizmente eu não sou. Eu sou casado e eu tenho filhos" e assim por diante. 
E ele era um desses franceses terrivelmente refinados que você não tem como saber.
[risada]

- Vocês dois estavam evitando a vida um do outro…

Sim… você sabe, nós ainda somos amigos. Eu gostei muito dele, mas eu ficava apenas imaginando se ele era gay ou não…
Aqui a política de identidade é muito forte. As pessoas são rápidas em mostrar sua orientação sexual.
O “palavrão” (gay) na França era mais discreto. Todo mundo quer ser discreto, e os americanos são considerados muito agressivos e muito atrevidos.
  

- Há outros cantos, para ir além de Paris, na França?  Digo, você viajou ao redor de outros lugares por lá…

Bem, sim. Por exemplo, há um guia internacional gay chamado Spartacus, e ele lhe diz todo pequeno bar e sauna em todas as cidades.
E eu estive em todas as cidades principais, sendo Lille, Lyon ou Bordeaux. Eu fui a todas estas cidades, e todas elas têm uma sauna gay, quatro ou cinco bares gays ou organizações gays e assim por diante. 
Eu suponho que com referência a lugares específicos, muitas pessoas vão para Saint Tropez e eu penso que muitas pessoas, que se interessam por teatro, vão para o Festival de Teatro de Avignon, que é no final de julho e começo de agosto, que acontece durante 3 ou 4 semanas. Pode haver 200 apresentações todas as noites. 
Todo pequeno cabaré… e isso é muito fofo, toda vez você caminha rua abaixo, as crianças tentam te arrastar para suas brincadeiras. Não é especificamente gay, mas há um grande numero de pessoas gays lá.
  

- E você? Você tem algum favorito?  

Bem, Paris é ótima, pois Paris tem uma coisa chamada Paris Plage. 
E o prefeito de Paris, claro, é gay, e por isso ele é muito simpatizante com gays em Paris. 
Eles montaram estes guarda-sóis, areia e tudo por todo o rio, e há muitas pessoas que ficam nuas ou em trajes de banho muito pequenos por todo o rio Sena.
Paris é muito divertida no verão. Todos costumavam sair em julho ou agosto, pois os franceses têm 4 a 6 semanas de férias.
Eles geralmente pegam quatro semanas no verão e duas no inverno. 
Agora com o efeito estufa, Paris ficou mais quente do que costumava ficar no verão, e isso é quase um choque para os franceses, que não têm ar-condicionado e assim por diante.
E agora, você sabe, eles têm esta coisa nova de bicicleta grátis.

- Sim, e eles usaram Amsterdam como modelo?

Sim, mas é até mesmo mais sistemático, sendo francês. Elas são todas idênticas e isto se mantém. É bastante agradável.
Há um tremendo número de bares e saunas em Paris. 
Eu considero Paris uma das cidades mais sensuais para os gays.
  

- Quando você estava morando em Paris, havia algum lugar que você amou e ainda está lá até agora, e que você continua voltando cada vez que vai lá?

Há uma sauna só para os homens mais velhos e seus admiradores, que é agradável, pois você não quer ser um velho feioso que passeia por aí, no qual as pessoas serão rudes, tipo "tire-o daqui".
Você quer ir para um lugar onde há outros sujeitos mais velhos ou  pessoas jovens que gostam de sujeitos mais velhos.
E há uma sauna em Vincennes, Bains Montansier, que tende a abrir ao anoitecer e fecha lá pelas 9 horas, ou coisa assim, porque as pessoas todas vão para casa ficarem com suas esposas.
[White faz uma careta e cai na gargalhada].


- Então, você escreveu "The Flaneur".  E é o primeiro na série O Escritor e a Cidade (The Writer and the City), e você pode encontrá-lo na seção de viagens de uma livraria.  Mas, uma vez que foi o primeiro da série, você não teve de fato outro livro para se basear, e teve um exercício totalmente aberto.  Como você decidiu conduzir este livro, pois lê-se completamente diferente de outros guias de viagens?

 Bem, foi um livro divertido de escrever, porque Liz Calder, a chefe da Bloomsbury, me pediu que o fizesse e eu disse a ela, “Bem, por quanto tempo deveria ser isto?” 
E ela disse, “Bem, quanto tempo você quer para isto?” 
E eu perguntei, “Deve haver fotos?” 
Ela disse, “Se você quiser!” 
E eu perguntei, “Deve haver mapas?” 
Ela disse, “Se você quiser!” 
Eu poderia fazer literalmente tudo que eu quisesse com o livro, e eu me lembro que quando eu o terminei, eu disse ao Michael, meu namorado: “Esta foi a pior merda que eu já escrevi!”. E todo mundo amou o livro, e eu acho que é meu livro mais vendidoo. Foi publicado em vários idiomas. Eu não entendo muito bem isso, mas eu acho que é em parte por Paris. Quando eu ia para Washington D.C., eu sempre fazia conferências para os mesmos 20 gays mais velhos de Smithsonian, mas para aquele livro o Smithsonian teve que assumir o Departamento de Agricultura. Havia algo em torno de 1000 pessoas lá, e todas estas pessoas muito prósperas lá com seus sessenta anos, casais heterossexuais, que nunca ouviram falar de mim antes, mas estavam lá por Paris.
  

- Bem, eu imagino que é um livro muito romântico, que captura o modo que as pessoas imaginam Paris. 
 
Sim… e é ligeiramente fora de ritmo, porque o livro fala mais ou menos sobre uma Paris alternativa. Judeus em Paris, homossexuais em Paris e árabes em Paris. Digo, não é apenas uma Paris que eu chamo de matronal, com a Champs Elysées e a Torre Eiffel, e restaurantes chiques e tudo aquilo. É mais uma Paris alternativa, que eu imagino ser interessante, e as pessoas gostam disso.

- Especialmente se elas já estiveram mais de uma vez em Paris…

Eu escrevi outros livros que se passam  em Paris.
Um de meus livros é chamado O Homem Casado (The Married Man), e eles estão falando sobre fazer um filme francês sobre este livro, que seria filmado neste outono. É sobre um caso entre um americano que vive em Paris e um francês que adquire AIDS e morre.
  

- Agora, você viveu na França por…

Por 15 anos, quase direto. Com exceção do ano e meio que eu lecionei em Brown, em 1990. 

- Em que está trabalhando agora? 

Uma biografia de Rimbaud. Muito fascinante. Ele se encheu de escrever, estava vivendo longe da França e nem fazia idéia que seu trabalho era aclamado criticamente. Ele deixou de escrever quando ele tinha 20 anos!  

http://www.edmundwhite.com/

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