Cinco dias na França

Cinco dias na França
por Rosangela Lyra*

 Uma viagem religiosa e gastronômica vivida e narrada por Rosangela Lyra.

Saulieu fica, pela Route Nationale 6, a meio caminho entre Paris e Lyon. Vindo do norte são 250 km de uma estrada larga e agradável, passando por “verdes prados e águas refrescantes”, como os do Salmo 22. Emoldurada pelos vinhedos ilustres dos Montrachet e dos Mâcon e salpicada de pequenos bistrôs onde a mais simples das quiches de beira de estrada vai lhe deixar na boca uma sensação inesquecível. Le Chemin du Soleil, é assim os franceses apelidaram a N6. Para nós aquele seria Le Chemin de la Gastronomie. As pessoas usam a expressão “é de comer de joelhos”. Aqui, faz todo o sentido. Experimentamos uma viagem sacra-gourmande-cultural.A Borgonha é deliciosamente sacrossanta.

 

Dia 1 – Saulieu<?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

Nada como começar a viagem com uma impactante experiência três estrelas. No Relais Bernard Loiseau, com sua despretensão aparente à primeira vista, corre-se o risco de passar por ele, sem se perceber. No verão francês, os vilarejos viram lugares espectrais, apenas uma ou outra pessoa cuidando do jardim ou saindo da boulangerie, com a baguette tradition debaixo do braço. Saulieu não é exceção. Mas é só você ingressar no Relais Bernard Loiseau – onde nos hospedaríamos por três noites – para entender que algo de muito especial vai acontecer. Por mais reformas que tenha passado, o hotel remete a uma tradição de séculos e impõe, de cara, a atmosfera de uma solene responsabilidade na arte de bem receber.

Dominique Loiseau, madame la propriétaire, é uma senhora ágil, mãe de três filhos, que teve de fazer face quatro anos atrás a uma trapaça do destino. Seu marido, o triestrelado chef Bernard Loiseau, se matou porque lhe chegou a notícia de que o severo Michelin Rouge ia lhe tirar uma estrela.  Dominique, dona de uma fé poderosa, mobilizou o sous chef  Patrick Bertron e, sem renunciar aos clássicos de Bernard Loiseau, reconstruiu a mística de uma cuisine superior. A estrela que se foi voltou, dois anos depois. Comer chez Dominique é uma experiência de vida.

Nosso primeiro cardápio (é, não resistimos e acabaríamos voltando): Minute de langoustines au citron vert; foie gras chaud, rhubarbe et surreau; blanc de volaille, foie gras chaud; agneau au lait des Pyrénées au fenouil. De sobremesa, amour de framboise e carroussel de fraises à la reglisse.(não daria para traduzir ? não fica meio blasé demais ?) Regado a um copo de Beaune 1er cru e água Vittel. O surpreendente friozinho de dez graus que fazia naquela nossa primeira noite era prenúncio de um dia esplendoroso. Os passarinhos na minha varanda vieram confirmar, de manhã, minha suspeita.

 

Dia 2 – Saulieu e arredores

E foi mesmo. Minha idéia de viagem consiste em entender a escala de cada lugar que você percorre. Num vilarejo do interior da França a graça é sair pelas ruas, a pé, explorar os becos, bater à porta das vendinhas e dos artesãos. O orgulho da pequena Saulieu – além de seu ícone gastronômico – é o Museu François Pompon, um escultor (1855-1933) que tinha exclusivo fascínio, em sua arte, pelos animais. Perambulando a esmo, demos com a basílica de Saint-Andoche, com agudos capitéis e entalhes em pedra que datam do século XXII. A Borgonha – eu iria ficar sabendo – tem um impressionante patrimônio de igrejas e monastérios medievais, muitos deles inspirados por São Bernardo e pelo estilo à época chamado de cisterciense.

Outro exemplo: a imponente abadia de Fontenay, que nós visitaríamos em seguida (meia hora de carro de Saulieu). O próprio São Bernardo foi o fundador, em 1118, conquistando para os claustros, os aposentos, os jardins e a capela os difíceis e pantanosos terrenos. O complexo é hoje administrado pela família Aynard – cujo patriarca, Edouard Aynard, foi um banqueiro de Lyon e grande colecionador de obras de arte – e onde  visitas são bem-vindas. A Unesco declarou Fontenay patrimônio da humanidade em 1981. O canto gregoriano que ecoa nos corredores parece contagiar  todo o ambiente com uma aura de fé. As flores do lindo jardim parecem produzir um coro de fervorosa alegria.

Vizinha está a montanhosa Flavigny, com aquelas ruelas medievais que serviram recentemente de décor para o filme Chocolate, com Juliet Binoche e Johnny Depp. Mas Flavigny é muito mais antiga, vem da época romana, dizem que Julio César ali acampou suas tropas. E o perfume que recende da aldeia não é do de chocolate, e sim de anis. Na França, você cita o nome Flavigny e as pessoas imediatamente pensam em balas de anis.

De volta ao Relais, não resistimos e pedimos bis no restaurante. Tínhamos agendado um três estrelas na Côte d’Or, ali pertinho, mas não dava para resistir a um menu à la carte que lhe piscava com a perspectiva de, entre outras delícias, jambonnettes de grenouilles (rãs) à la purée d’ail et jus de persil e um foie gras de canard em pot-au-feu, croustillant de tutabaga. Esperava pelos mais corajosos, ulalá, um filet de charolais (o gado local) cuit au foin em croûte d’argile, toast de moelle glacée au vin.        . 

 

 

Dia 3 – Saulieu/Parc du Morvan/Beaune

O ensolarado petit déjeuner no terraço do Relais antecedeu um dia de deliciosas descobertas. Estava tudo preparado para nós: duas bicicletas e um piquenique. A N6 é uma estrada bastante movimentada, especialmente num sábado de tempo bom, mas é uma tranqüilidade trafegar de bicicleta num país que ama o ciclismo. Nosso rumo era o Lac Saint Agnan no Parque Nacional de Morvan. Tivemos de pedalar, por duas horas, 30 quilômetros de ladeiras sinuosas. Lá de cima, enfim, descortinamos um vale de incrível exuberância vegetal, matas, riachos, lagos – uma beleza. 

Voltamos desse paraíso para, aí já de carro, tomar o sentido contrário, cruzando aquela região de excelência em iguarias e em vinhos chamada Côte d’Or. É o caminho para Dijon e não é exagero nenhum dizer que tudo ali recende à célebre moutarde, em suas múltiplas variações (estragão, mangericão, mel, cassis, vinho tinto...). Moutarde de Dijon com pão – uma completa refeição. Chegamos a Beaune, que dá nome a um vinho de alta qualidade. Não deu para resistir: tivemos ali mais um momento Loiseau. O Loiseau des Vignes é um pequeno bistrô de comida igualmente impecável que Dominique e o chef Patrick Bertron regem, com a mesma e carinhosa competência.

Fizemos escala num domaine onde nosso amigo Vincent Girardin fez seus vinhos à l’ancienne. Um Mersault, branco, de produção pequena (quase toda ela exportada para os Estados Unidos) e qualidade altíssima. Para produzir a fermentação, as uvas são pisadas nos amplos lagares. O sistema se chama foulage. A Borgonha tem essa atitude muito mais relax do que Bordeaux – onde, para começar, até a menor vinícola se chama château..

A visita obrigatória é aos Hospices de Beaune. Uma espécie de Santa Casa de Misericórdia criada no século XV por um homem que, diz a lenda, era tão rico quanto miserável. Temeroso do acerto de contas final com um Deus que era, na Idade Média, um Deus de ódio – não o Deus de amor como a gente o vê hoje em dia – apressou-se em criar um lugar que pudesse acolher os pobres em seus momentos de desamparada doença. O estilo, impressionante, é gótico-flamengo e as paredes, salpicadas de frases de encorajamento espiritual, parecem transpirar o sofrimento de seus antigos ocupantes. 

 

Dia 4 – Nevers

Adeus a Dominique Loiseau (que me presentou com o livro de seus segredos culinários), ao Relais, a Saulieu e, de novo, pé na estrada, a N6, agora rumo oeste, no sentido do rio Loire e da cidade de Nevers. Ela traz consigo uma imponência ducal: era a residência dos Duques da Borgonha, que até o século XIV mantiveram uma forte autonomia política em relação aos frágeis reis de França. O Palácio Ducal, erigido por Jean de Clamecy, é uma testemunha desse poder temporal. É, porque de um século e pouco para cá um poder mais doce, mais perene se levantou em prol de Nevers.

Hoje ela é uma cidade-santuário, como Lourdes, onde, aliás, a historia toda começou, na delicada figura de Bernardette Soubirous, a quem Nossa Senhora apareceu, na gruta de Massabielle, para anunciar o mistério da Imaculada Conceição.   

Depois da revelação, para fugir ao assédio das pessoas que vinham do mundo inteiro  conhecê-la, Bernardette foi acolhida em Nevers na Casa das Irmãs da Caridade. Na viagem que fiz ano passado a Lourdes foi que eu soube de sua história. O Espace Bernardette em Nevers preserva a aura de santidade nos lugares em que ela orou e meditou até sua morte, em 1879. O corpo foi desenterrado anos depois e – milagre! – estava intacto. Continua intacto, no silêncio comovente da urna da capela principal.

A alma farta, o alimento para o corpo nós fomos buscar no simpático, charmoso La Cour St.-Etienne, em frente à igreja de St.-Etienne, e, no jantar, após uma caminhada pelo bairro histórico de Nevers, no Le Puits de Saint-Pierre. No Hôtel de la Chasseigne, prédio renovado do século XVI, o rumor distante do Loire nos embalou num sono reparador. Esta é a França que amo, sempre capaz de surpreender – o espírito, a mente, os sentidos.

 

Dia 5 – Chartres

É um longo trajeto, mas nada que se compare com as esticadas que a gente está acostumada a fazer nesse gigantesco país chamado Brasil. 277 quilômetros, com trechos rápidos de autoestrada e outros de rodovias regionais. De todo modo, nós só chegamos depois do meio-dia. Chartres está de costas para a Borgonha, na encruzilhada que leva a Paris, à Normandia, à Bretanha e aos castelos do Loire. Chartres é também um lugar de peregrinação, por sua magnífica catedral gótica que a Unesco reconheceu como monumento da humanidade. Mais de um milhão de turistas – me disseram – visitam a cidade num ano.

A catedral é, de fato, um espanto, de tirar o fôlego, mas Chartres está hoje empenhada em diversificar seu carisma muito além de seu mítico ícone gótico. A cidade está no coração do que os franceses estão vendendo ao mundo como – assim mesmo, em inglês – Cosmetic Valley. É uma vasta constelação de lugares – escolas, centros de pesquisas, universidades, laboratórios – que pretendem ser o pólo mundial de perfumaria cosmética. Algumas grifes, nos arredores de Chartres, aromatizam essa ambição: Guerlain, Paco Rabanne, Pacific-Création. Minha querida Dior está por perto, na nobre região de Orléans.

No Bistrot de la Cathédrale, saboreamos os primeiros prazeres mundanos de Chartres: o afamado patê foi degustado com os apropriados vinhos do Loire. Mas a sublime recompensa para o paladar viria no tour a pé que fizemos pelo centre ville, batendo, de porta a porta, num elenco variado de artesãos chartrains – que, naquele seu jeitão provinciano, preservam a tradição de uma gastronomia sem alarde, mas requintadíssima. A padaria da família Botrel... A Boucherie Pinson... A loja de embutidos de Madame Poussard... A chocolateria de Monsieur Poirier... A doceria Migeon... A fromagerie Saint-Suzanne...

Antes de nos recolhermos aos perfumados lençóis do Le Grand Monarque, desfrutamos o intermezzo mágico, colorido, da Ville des Lumières. Toda noite, até o final do verão, Chartres veste-se de uma efusão de imagens e de sons. São cenas históricas em forma de filmes ou slides, projetadas nas fachadas dos prédios ou catedrais seculares , num contraponto luminoso que ousa brincar tanto com o prédio da Prefeitura, como a beira do rio Eure,  – como se a cidade inteira simulasse subitamente as transparências de mil e um vitrais. É um ótimo programa para se fazer depois de jantar , caminhar com segurança e ainda aprender ludicamente.

No dia seguinte, esperavam por nós Paris e Rolland Garros – onde tivemos a sorte de presenciar a vitória do virtual campeão, Roger Federer, sobre o xodó local, Gaël Monfils. Mas esta,  já é outra história.

 

 

Endereços úteis:

www.chartres-tourisme.com

www.nevers-tourisme.com

www.bourgogne-tourisme.com

www.bernard-loiseau.com

 

 

* Rosangela Lyra é diretora geral da Dior no Brasil, católica praticante e conselheira do turismo francês.